Participei da Virada Cultural do ano passado tocando de madrugada no palco instrumental. Tocamos em frente ao prédio dos Correios e tinha muita, muita gente assistindo. Toquei no horário que teve o Cássio Ferreira (sax), Thiago Alves (baixo), Alex Buck (bateria), Edinho Santana e Thiago Pinheiro (piano) - ainda rolou som com o Marcelo Mariano (baixo), Ramon Montagner (bateria) e François Lima (trombone) nas beiradas dos horários de cada um. Enfim, foi muito legal e foi possível tocar à vontade (apesar dos amplificadores de guitarra da equipe de som contratada pela Prefeitura serem péssimos - não citarei a marca pra não falar de coisa ruim) frente a milhares de pessoas.
Bem, neste ano rolou o contato comigo por parte da mesma produtora que me levou para a Virada do ano passado e estava tudo certo, até recebermos a notícia: a verba para o palco instrumental da Virada Cultural 2009 foi cortada!
Não surpreende-me o fato de que o primeiro item a ser cortado seja o item que possa gerar questionamento e reflexão. Digo isso porque os músicos que tocaram no palco instrumental no ano passado, por exemplo, não tocam "Música Pra Pular Brasileira"; tocam música! Não tem "tira o pé do chão", não tem "vamo aí galera", enfim, não tem "comandos para distração em massa" ou mesmo quaisquer apelações para efeitos pirotécnicos ou bundas gostosas sendo esfregadas na cara do público. O que tem é, pura e simplesmente, música acontecendo.
É realmente lamentável que no ano de 2009 a Virada Cultural não tenha o palco instrumental. O mesmo "palco instrumental" que já não existe nas tvs, nas rádios, e que já não existe nem nos bares - sim, nem nos bares ditos de "jazz", onde os músicos que se ainda se sujeitam a tocar têm que se conformar em: fazer fundo musical para conversas de gente mal-educada (sob o argumento de que o PSIU está rondando por aí e devido à falta de tratamento acústico da grande maioria das casas); receber um dinheiro completamente abaixo do que é digno (e isso quando recebem no dia); e, ainda, receber um tratamento lastimável por parte de proprietários, seus gerentinhos e afins. E o cerco vai se fechando...
Convivamos com o fato de que uma das oportunidades de encontrar um grande público reunido para ouvir música será impedida de acontecer, e sem maiores explicações. Essa é a democracia sob a qual vivemos: só o que convém ao "regime" será veiculado e colocado em evidência. A politica do “pão e circo” da Roma antiga continua e, neste caso, não vai ser preciso nem o pão.
Clique abaixo para ouvir Michel Leme:
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